Por: Roges Maciel
Brincar é um dos momentos mais felizes do dia para os cães, mas será que é possível que essa diversão se transforme em algo parecido com um vício?Um estudo recente da Universidade de Berna, na Suíça, trouxe um novo olhar sobre o comportamento dos nossos companheiros de quatro patas e revelou algo curioso: alguns cães podem apresentar sinais de compulsão semelhantes aos vícios humanos.
De acordo com os pesquisadores, a maioria dos cães reage de forma equilibrada às brincadeiras. Porém, em alguns casos, o prazer de brincar ultrapassa o limite e se transforma em uma fixação difícil de interromper.
Durante o estudo, 105 cães foram observados em diferentes situações: com brinquedos à disposição, fora do alcance e com recompensas alternativas, como petiscos e carinho.O resultado surpreendeu — 33 cães não conseguiam se desligar do brinquedo, mesmo diante de comida ou atenção do tutor. Outros ficavam encarando o local onde o objeto estava guardado, demonstrando um comportamento repetitivo e insistente.
“Alguns cães simplesmente não conseguem parar de brincar, como se algo dentro deles os empurrasse para continuar”, explicaram os cientistas.
Os pesquisadores evitaram usar o termo “vício” no sentido clínico, mas reconheceram as semelhanças com comportamentos compulsivos humanos.Assim como em pessoas com vício em jogos ou apostas, os cães com comportamento obsessivo parecem ter os mesmos circuitos cerebrais de recompensa ativados — ligados à dopamina, o neurotransmissor do prazer.
A repetição cria uma espécie de “loop de satisfação”, que pode levar o animal a buscar o brinquedo de forma incessante, mesmo sem prazer real no final.
Em humanos, esse padrão está por trás de vários comportamentos aditivos, como o uso de redes sociais, jogos e até alimentação compulsiva.Nos cães, o processo parece seguir uma lógica parecida, mas sem consciência do ato — é puro impulso.
O estudo também revelou que raça e genética têm peso importante.Cães de trabalho, como border collies e pastores, foram os que mais demonstraram fixação nos brinquedos. Isso ocorre porque essas raças têm um nível de energia alto e um sistema de recompensa mais sensível, o que as torna ótimas para atividades de busca ou pastoreio, mas também propensas a comportamentos repetitivos se não forem bem estimuladas.
O ambiente doméstico também tem grande influência.Quando o tutor oferece sempre o mesmo tipo de brinquedo, ou estimula o cão por longos períodos sem pausas, o cérebro do animal aprende a associar prazer apenas àquela atividade, gerando desequilíbrio.
✅ Dica prática: varie as brincadeiras!Inclua caminhadas, jogos que estimulem o faro, treino de obediência e até momentos de descanso entre as atividades. Essa alternância ajuda o cão a manter o interesse e reduz a chance de desenvolver compulsões.
Nem toda empolgação é um problema, mas vale observar se o seu cão apresenta alguns dos seguintes sinais:
Se o brinquedo deixa de ser diversão e passa a dominar o dia do pet, é hora de repensar a rotina.Em casos mais graves, quando há autoagressão, ansiedade excessiva ou cansaço extremo, procure um veterinário comportamentalista — ele pode ajudar a reequilibrar o comportamento com técnicas adequadas e enriquecimento ambiental.
Além de ajudar a compreender melhor o comportamento dos cães, a pesquisa traz um lembrete sobre nós, humanos: vícios e compulsões têm raízes parecidas, ligadas ao prazer imediato e à dificuldade de controle.Entender isso pode ser um passo importante para prevenir problemas emocionais tanto nos animais quanto nas pessoas.
Afinal, o equilíbrio é a chave — para eles e para nós. 🐾
Descubra por que alguns cães preferem dormir longe dos tutores!
Médico Veterinário e idealizador do Linhagem Pet. Apaixonado por pets, boa comida, filmes e séries.
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